Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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O que está por cumprir

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Si bu sta dianti na luta, ai

Pasa diante po

Finkanda purmeru dubi, ai

Di kasa ki no misti kumpu

 

[Se estás à frente na luta
Toma a dianteira,
Finca o primeiro tijolo
Da casa que queremos construir]

 

José Carlos Schwarz – Si Bu Sta Dianti Na Luta (1975)

 

 

 

 

Cresci em Lisboa, mas vivi nos Açores e, recentemente, no Baixo Alentejo. Produto de uma geração globalizada, aconteceu-me ter ido trabalhar em projetos culturais, de educação e jornalismo, por alguns anos, para Cabo Verde, Angola, Moçambique, Brasil (Rio e São Paulo), Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e África do Sul. Vou regressando a alguns desses lugares onde mantenho uma vida afectiva e laboral, e sempre aprendo e me reivento num processo de escuta ativa.

 

O DIPANDA resulta da vontade de mostrar algumas das reflexões poéticas que pululam por esses países. O primeiro é sobre a ideia de independência, essa bela palavra que dialoga consigo mesma e com o outro. O ano zero, um momento de potencial, onde tudo se podia reiventar e prometer. O momento da celebração e da tensão, de construir o primeiro tijolo de uma casa ou de um país.  Ouvimos vozes de poetas africanos nascidos depois de 1975, que expressam, a partir dos seus lugares, uma certa desilusão pela independência boicotada, adiada, presa às memórias. Vozes que já não acham tanta graça a que os mais-velhos digam “não foi isto que combinámos”. É que não foi mesmo isto que combinámos. Vozes dessa dipanda que todos os dias se tenta cumprir um pouco mais.

 

Neste primeiro episódio juntamos as vozes das angolanas Leopoldina Fekayamale e Irene A’mosi, dos guineenses Marinho Pina e Sumaila Jaló (lendo Ronaldo Mendes) e do cabo-verdiano Revan Almeida.

 

 

 

Marta Lança

Autoria e locução
Marta Lança
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
poemas
Independência que veio e que andou (Leopoldina Fekayamale), A criança que estava morta (Ronaldo Mendes, lido por Sumaila Jaló), Sou a Guiné - Ami i Guiné (Marinho de Pina), Liberdade (Revan Almeida), Silêncio (Irene A'mosi)
Músicas (excertos)
Valódia (Santocas,1974), Muzangola (Vum Vum, 1969), Si Bu Sta Dianti Na Luta (José Carlos Schwarz,1975), futur passod na prezent (Revan Almeida, 2021)
agradecimentos
Isabel Meira