reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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6. sonho de artista (sem aspas)

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e ele foi e ela foi
e ambos subiram a escada
incrível como ele era esperto
certamente serão reparados no futuro

voltarão a ser aquilo que já foram
talvez uma razão para que vivam
a arqueologia pictórica
a escavação semiótica
a segunda vinda que soltará
os cachorros da anarquia no mundo
é merecido para ele esse lugar perdido

onde se gastam os últimos suspiros
de uma bateria viciada escrevendo
sobre o sorriso de um homem

preferencialmente baterista
se tiver os cabelos sujos será um diferencial

 

 

 

Sexta de seis partes do poema “Pequena ode ao poeta carioca”

De sorry.gif (Edições Macondo, 2020)

gravação
Felipe André Silva
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca