Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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6. sonho de artista (sem aspas)

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e ele foi e ela foi
e ambos subiram a escada
incrível como ele era esperto
certamente serão reparados no futuro

voltarão a ser aquilo que já foram
talvez uma razão para que vivam
a arqueologia pictórica
a escavação semiótica
a segunda vinda que soltará
os cachorros da anarquia no mundo
é merecido para ele esse lugar perdido

onde se gastam os últimos suspiros
de uma bateria viciada escrevendo
sobre o sorriso de um homem

preferencialmente baterista
se tiver os cabelos sujos será um diferencial

 

 

 

Sexta de seis partes do poema “Pequena ode ao poeta carioca”

De sorry.gif (Edições Macondo, 2020)

gravação
Felipe André Silva
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca