Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Amor transatlântico

Partilhar

Diz-lhe que volto hoje para casa.

 

Assim que chegar, pulando o portão

depois da alegria desenfreada dos cães

baterei à porta. Uma sílaba gigante.

Olhar-me-á com espanto, envelhecemos

as duas, tão depressa. Mãe.

 

Diz-lhe que volto amanhã para casa

e que a California me atrasou.

 

Assim que chegar, tocando à campainha

depois da alegria desenfreada dos cães

ela abrirá a porta. Uma sílaba tremenda.

Mãe. Toca-me sempre o rosto três vezes

para ver se existo. Não existo.

 

Diz-lhe que volto para casa mês que vem

e que a América do Sul me atrasou.

 

Ela estará à minha espera, sorrindo:

entre a alegria desenfreada dos cães

perguntará pelo que vi e escrevi.

São Paulo, Santiago, Bogotá

mil engenhos verbais, estudos

anatómicos, ruidosos, atómicos.

Sílaba extensa, um amor transatlântico.

“Não há vida para tantos incêndios”

dirá a mãe. “Poemas, talvez”.

 

Diz-lhe que volto para casa ano que vem

e que as palavras me atrasaram.

 

 

 

 

 

in revista Ouriço n.1 (Brasil)

 

data de publicação
05.11.2022
gravação
Patrícia Lino
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca