Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

As cartas de amor já não têm mais os nossos abraços

Partilhar

No precipício abençoado de éter infinito

Uma tarde feita de rosa e de azul místico

Como um longo soluço carregado de adeus

A ausência

O rosto opaco, pálido

Movimentos corporais assimétricos

 

No quebrar das ondas

O mar não tem mais voz

Levanta uma madeira à deriva

& afunda

Nenhuma palavra de morte na manhã reluzente

E ficam aqui os de chorar

 

Nada mais foi dito

Um transe entre a Moldávia e o Danúbio

O corpo do gesto

O refúgio do mar nos ensinou o que é o amor

Os nossos corpos perdidos noutro planeta

O constrangimento dos teus abraços

 

Tua vista penejando na névoa

Os labirintos

Fico na margem e vejo

mergulhar e revirar

São os piores dias

Esta luz, o fogo que me devora

 

A dor é só uma ideia

Paisagens íngremes me rodeiam

& sucumbes

A cada abraço

A cada gesto impuro

Perco mais uma vez o mundo

 

 

 

De A ressaca do mar trincou meus ossos (Loitxa Lab, 2021)

gravação
Jean Albuquerque
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca