reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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O show de Góis

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Tem gente que fala que isso não é legal
O que não é legal é desigualdade social
Não quero atrapalhar sua leitura
Só vim para trazer um pouco da minha cultura

 

Falo com o pessoal da era digital
Hoje em dia até o sentimento é virtual
O pessoal vê vídeo e foto e vai dar um like
Mas se vê o artista sempre quer ajudar mais tarde

 

Tio Góis

 

 

O primeiro Palavras Roubadas capta rimas improvisadas na linha de comboio de Lisboa-Cascais. Entre o compasso da viagem e a repetição da paisagem, Góis surge como um profeta urbano. Natural de Goiânia, 32 anos, segue a trilha do hip-hop que iniciou em São Paulo, onde fazia beat-box numa das primeiras duplas a atuar em transportes, há 15 anos (ainda não havia colunas portáteis). As saudades da namorada e o cansaço da carreira musical na grande metrópole trouxeram-no a Portugal. O regresso aos comboios, agora como Mestre de Cerimónias, é o trabalho que lhe paga as contas e o sonho de gravar um disco e resgatar a sua vida de músico. Pelo caminho, espalha rimas bem humoradas nas carruagens, com o embalo da crítica social que é a raiz do hip-hop. Em cada pessoa encontra uma história, encadeada num mantra em forma de rap.

Gravação, edição e montagem
Oriana Alves
Masterização
Nuno Morão