reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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1. o que tenho na cabeça

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me envie amanhã bichos e máquinas

pois há sim maneira boa de contê-los

numa remessa
imagine

a possibilidade de enviar por correios

e telégrafos as bombas os beijos
todo o amor de platão visto
lá do piso mais alto da plataforma

me envie amanhã a incapacidade

da biologia a natureza

onde todos desembocamos

amanhã
a precisão suíça do relógio

a explicação do tempo

 

 

 

Primeira de seis partes do poema “Pequena ode ao poeta carioca”

De sorry.gif (Edições Macondo, 2020)

 

gravação
Felipe André Silva
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca