Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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3. um jägermeister com kandinsky

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caso possível fosse eu gostaria de dar
meu todo e meu mais um pouco para um artista

digamos
um artista russo e plástico
professor da bauhaus
cujas obras meu amor gosta
mas não compreende
dar meu todo e meu fim
mas também meu princípio
para um poeta carioca
com quem não dividi a noite em botafogo

gostaria de dividir a noite em botafogo com

alguém cujo nome eu soubesse o significado
e me fizesse enrolar a língua
quem sabe meu exercício favorito
para além de beber licores estranhos

e dormir sobre colchas estampadas
esse mundo ele diria é cheio de apaixonados
e artistas do capitalismo tardio
eu prefiro dar tudo de mim pois havendo suor

há reciprocidade

 

 

 

 

Terceira de seis partes do poema “Pequena ode ao poeta carioca”

De sorry.gif (Edições Macondo, 2020)

gravação
Felipe André Silva
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca