Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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êh lá em casa êh

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juntar três pau de ginga

meter rasteira

plantar roseira

êh pau de ginga êh

 

cavar três terreirão i arremate

subir casinha

afogar gentinha

êh terreirão i arremate êh

 

soprar três folha de arruda

roer ossinho de menino réi

lamber dedinho de menino réi

êh folha de arruda êh

 

lamber pedaço de dengo i banzo

tambor a pele mi’a

túnel a goela mi’a

êh dengo i banzo êh

 

amalocar aquilombar

aquilombar amalocar

êh-hhhhh casa-êh

gravação
Nina Rizzi
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca