Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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kandandu pa’ela

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muintas flôle pa lambê cum’miana pele di muler
inda dispois du buxo xeio dos fio quim fazê
lambê os fi tamém

óia, i inté memo ia a apanhá batuque nos lombos di capitaum:
tudo pesse sinho banco – discupa, mi obatalá mi xangô!
mim dexá ti chamá ansim “mozamô”

mai inveio naum! num quisi apendele ele
mim linguá kulunguana dizi qui infeio mi petuguêis
esclaviza mia linga cota mia linga

mai mim cala naum
a voz de mia dedos canta
canta i lambi in tua pele mozamô

 

 

 

 

 

inédito

data de publicação
23.11.2022
gravação
Nina Rizzi
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca