Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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aquele tipo de mulher

que atravessa o delta

esgarça poemas meu bem

arregalase meu bem

goza junto meu bem

sangra junto meu bem

 

estou sangrando meu bem

e é água encarnada like dark

e é una montana

e é una playa

mango leaves meu bem

 

lambo meus lábios

atravesso o delta

sangro junto meu bem

nessa onda nessa onda

de calor meu bem

de va gar de va gar

 

soy una gorila meu bem

data de publicação
26.11.2022
gravação
Nina Rizzi
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca