Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Composição poética representativa do futurismo português, Mima-Fatáxa — Sinfonia Cosmopolita e Apologia do Triângulo Feminino, de José de Almada Negreiros, chega ao público em 1917 no número único da revista Portugal Futurista. Movimento artístico efémero em Portugal, o futurismo alinha com as directrizes dos mestres franceses e italianos que, nesse ano, experimentam outros -ismos e tentam emergir da tragédia da Primeira Grande Guerra.

Mima-Fatáxa, poema de sintaxe à solta, é a apologia da luz e do brilho, do ritmo e da dança, do ruído e da confusão, da cor e da magia; é a proclamação da cidade – a grande cidade, Paris – como o centro da modernidade e do progresso, como o coração do futurismo, afinal.

Mas Mima-Fatáxa é também mulher-actriz-dançarina, um corpo de formas, contornos, gestos e jeitos que transbordam sensualidade e luxúria; é uma bailarina de circo que parece ter saído dos Bailados Russos de Nijinski e que personifica  os vícios e as virtudes do prazer carnal.

Tal como o título vaticina, neste poema, Almada Negreiros traça os contornos de uma Sinfonia Cosmopolita e desenha uma Apologia do Triângulo Feminino, criando uma composição ao gosto das vanguardas europeias e merecedora do epíteto com que o próprio se coroou: “Poeta d’Orpheu, Futurista e Tudo”.
Ana Deus interpretou o poema pela primeira vez em 2014, para uma encenação de João Sousa Cardoso estreada no Teatro Viriato. Em 2015, criou com os músicos Alexandre Soares, Gustavo Costa e Henrique Fernandes esta peça para a edição bilingue Nós, os de Orpheu /Whe, the Orpheu Lot, da BOCA e da Casa Fernando Pessoa.

 

 

 

Sílvia Laureano Costa

 

 

 

texto
Almada Negreiros
Interpretação
Ana Deus
música e sonoplastia
Alexandre Soares
Gustavo Costa
Henrique Fernandes
agradecimentos
Editora BOCA e Casa Fernando Pessoa, pela cedência da peça, integrada na edição "Nós, os de Orpheu".
masterização
PontoZurca