Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Rondel do Alentejo

 

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

Meia-Noite

do Segredo

no penedo

duma noite

de luar.

Olhos caros

de Morgada

enfeitava

com preparos

de luar.

Rompem fogo

pandeiretas

morenitas,

bailam tetas

e bonitas,

bailam chitas

e jaquetas,

são de fitas

desafogo

de luar.

Voa o xaile

andorinha

pelo baile,

e a vida

doentinha

e a ermida

ao luar.

Laçarote

escarlate

de cocote

alegria

de Maria

la-ri-rate

em folia

de luar.

Giram pés

giram passos

girassóis

e os bonés

e os braços

estes doisg

giram laços

o luar.

O colete

desta Virgem

endoidece

como o S

do foguete

em vertigem

de luar.

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

 

 

Almada Negreiros
In Poemas, de Almada Negreiros (Assírio & Alvim, 2005, pp. 10-12)

texto
Almada Negreiros
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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