Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Jorge Sousa Braga

Sobre o autor

Nascido em 1957 em Cervães, no concelho de Vila Verde, começou a escrever poemas quando era criança. Na década de 1980 formou-se em Medicina na Universidade do Porto, na especialidade de Obstetrícia/Ginecologia, e tem exercido na área de infertilidade/esterilidade. Autor de uma vasta obra poética, tem participado em numerosas antologias, como organizador e/ou tradutor. Traduziu Jorge Luís Borges, Matsuo Bashō, Li Po e Guillaume Apollinaire. A escrita de livros infantis é outro dos seus talentos. O seu Herbário (2014, Assírio & Alvim) foi distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil. O seu livro mais recente, A Matéria Escura e Outros Poemas (2020, Assírio & Alvim), foi distinguido com o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2020 e o Prémio Autores 2021 – Melhor Livro de Poesia, atribuído pela SPA.