Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz

não foi por mim

que te deixaste matar

Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem

não foi por mim

que morreste

Ninguém se deixa matar assim

para cumprir a vontade do pai

— Pai Pai faça-se a tua vontade! —

Ninguém se deixa matar assim

porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã

Não sei quantas maçãs já me ofereceste

sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar

do nosso apartamento de três assoalhadas

Não foi por mim que tu morreste

e ressuscitaste ao terceiro dia

É uma herança demasiada pesada

para se deixar a alguém

que só viria a nascer dois mil anos depois

e cujo único pecado foi nascer

Não foi por mim nem por ti nem por ninguém

que tu morreste

e continuas a morrer todos os dias

Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer

e voltar a morrer

Nem a vontade do Pai te serve de álibi

Não foi por mim que tu morreste

embora eu seja capaz de morrer por ti

 

 

 

De O Novíssimo Testamento e Outros Poemas (2012, Assírio & Alvim)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca