Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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corroído pelo sal

teu rosto

oscila e naufraga mas

o que a gente não sabia

era isso do mar

isso da pressão e da irritante

certeza e não clareza das coisas

engolidas pelo mar

e num belo dia um dia

de comprar flores e moluscos

passando pela bancada das

hortênsias a expansão das amídalas

um fio de voz que pede ajuda

agulhadas na cérvix a filha do

florista espantada e atenda ao divertimento

aflição e arrependimento sem razão

debaixo das unhas um sopro doentio

gelado direto na boca do estômago

como um soco de ressurreição voltar

voltar a respirar o apito de um

cargueiro longe o suficiente

 

meu deus

o mar!

 

como quem se lembra do

leite no fogo

 

data de publicação
15.11.2022
gravação
Carla Diacov
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca