Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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um nome, todos os nomes

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me sinto viva um pouco

causa do baque que ainda faz trecho

continuo trombando nos móveis e

isso também me parece bom

não ter na partitura habitual do corpo

a troca fixa de valores com o

mundo não estar para o concreto de

maneira convicta rija compreensiva

 

essa noite não sonhei contigo

outra brecha de bondade porque é nossa

qualquer outra noite é nosso o

carbono e o edredom

 

antes de saber seu nome

havia muita confusão no manuseio

da carne do assoalho pélvico muita

confusão um nome que por cuidado à humanidade

traz frutas e água fresca meu colo se enche de espaço

e quando mordo uma das carambolas arranco

um pedaço do germe causal da fruta

 

as marcas dos dentes a saliva o suco me mostram que sim

seu nome concorda e acena sorri fecha os olhos

dentro do rosto forjado à argila canela e cominho

sim ainda hoje serei antecipada no confronto

a cômoda a mesa a cadeira o cabideiro meu dedão

 

me sinto viva um pouco bonita iluminada

arranquei da fruta a integridade e a contradição

 

 

data de publicação
18.11.2022
gravação
Carla Diacov
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca