Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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treze maneiras de ver jesus

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1

a luz o vento e o calor

intenso a camisola de juta

colada no peito

 

 

2

um facho de sol que

fura nuvens e

ilumina o cadeado

no telefone

de discar do lado de fora

da bolha de vidro de meu

pai

 

 

 

3

o menino inri

organizador

das latas de sardinha no

hipermercado seus

cachos dourados suas

chagas sua hiperabilidade

em multiplicar torres sem

salivar

 

 

4

num filme adulto

imitando presépio

a manjedoura

três homens mirra

incenso ouro e

a

manjedoura

 

 

5

um quilo de

farinha de

trigo três pratos e um

tigre como se fosse

a fome

 

 

6

a luz o vento e o calor

intenso a toalha pendurada

na janela

toda a maquiagem nela

 

 

7

jesus disse que ele próprio iria comprar os pães

 

 

8

na ponta do lápis:

meu sangue

meu corpo

 

(roda o lápis no ar)

 

problema nosso

 

 

9

alguém andou

empilhando pedras

 

 

10

lázaro manda dizer

que não

aguenta mais

 

 

11

— deixem o homem trabalhar —

 

 

12

sobre águas silenciosas

eufórica a libelinha

como se fosse menino

 

 

13

pai

perdoa

manchei de novo

a velha bandeira

 

 

 

 

 

* sobre o 11, trata-se de uma fala dos apoiadores do fascista que desgovernou o Brasil até dezembro de 2022.

data de publicação
20.11.2022
gravação
Carla Diacov
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca