Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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quase nada no mundo

explica a forma humana

na natureza as coisas têm harmonia

matemática química

a natureza é excêntrica

extraordinária apontável significante

o ser humano é uma bagunça que nem

o caos acolhe

é porém amável

é possível amar o ser humano

não como amar uma couve-flor a sequência

matemática perfeita em suas espirais

o pinto o próprio ovo o bico da galinha

suas penugens sob a lente de um microscópio

pequeníssimos soldados angelicais da geometria

um pedaço do couro humano não tem

¼ da elegância exata de um pedaço de shitake

 

quase nada no mundo explica a

forma humana o que significa

o quase existe está e permeia

a baba após o beijo

o silêncio após o choro

a linguagem anterior aos verbos

 

a tudo que se refere ao humano

bicho tão desnaturado

é ao quase que devemos

nos agarrar

e puxar para uma última dança

 

data de publicação
14.11.2022
gravação
Carla Diacov
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca