Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Os corpos escravizados continuam escravizados

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O luto toma conta das palavras, mesmo que nunca seja pronunciado: “a gente não vai conseguir curar todas as feridas da terra”, constata o líder indígena Ailton Krenak. Pensar sobre o antropoceno, a era geológica marcada pelo impacto do homem, é pensar sobre o colonialismo. Os corpos escravizados, os bastardos, as independências subalternas da América Latina – cabe tudo no retrato de um país que se prepara para uma nova ida às urnas. Mas, para Ailton Krenak, a ideia de democracia surge entre aspas, condicionada pela lógica da “política predatória”, que “actua para produzir fome e miséria no mundo”.

Natural de uma aldeia na região do Vale do rio Doce, no Estado de Minas Gerais, protagonizou um dos momentos mais marcantes na luta pelos direitos dos povos indígenas: durante um discurso no plenário do Congresso Nacional, em 1987, pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo, tal como a tribo Krenak faz em situações de luto. O gesto simbólico de protesto e o trabalho de várias lideranças resultaram numa conquista inédita – a inclusão de um capítulo sobre a protecção dos direitos dos povos indígenas na Constituição brasileira de 1988. Ailton Krenak é fundador de várias organizações como a União das Nações Indígenas ou a Aliança dos Povos da Floresta, mas qualquer tentativa de o sentar no lugar de porta-voz esbarra na singularidade incómoda do seu pensamento. Como a ideia de viver, assim: “você poder chegar em algum lugar do país e poder dizer, ah, ali aquelas pessoas só estão vivendo”.

Distinguido com vários prémios e condecorações, autor de livros como “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2019) ou “A vida não é útil” (2020), observa o que se passa no Brasil e no mundo, com a ameaça crescente de uma guerra nuclear. O luto, uma vez mais, enraizado e premonitório, na pasta de jenipapo de Krenak, na cadência de um planeta enfermo.

 

 

 

 

Isabel Meira

data de publicação
14.10.2022
autoria, edição e montagem
Isabel Meira
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
créditos
"O Canto das Montanhas", Krenak Maxakali Pataxó, Festival de Dança e Cultura Indígena da Serra do Cipó, Minas Gerais, Brasil (2007);

Ailton Krenak, excerto do discurso proferido na Assembleia Nacional Constituinte, Brasília, Brasil, 04/09/1987;

Ailton Krenak, excerto do documentário "Ailton Krenak: O Sonho da Pedra", de Marco Altberg (2017);

Carlos Drummond de Andrade, declama "O homem; as viagens", do livro "As impurezas do branco" (1973)

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