Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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Testamento e Melodia

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O rio Dnipro nasce a 250 quilómetros a oeste de Moscovo, corre ao longo da Rússia em direcção à Bielorrúsia, de onde segue para a Ucrânia. Antes de morrer, o poeta Taras Shevchenko (1814-1861) deixou, no poema “Testamento”, um pedido: ser sepultado numa colina, para ver as correntes do Dnipro. O gigante rio desagua no Mar Negro, a noroeste da Península da Crimeia, depois de percorrer quase 2.300 quilómetros, e com ele a memória da luta de Taras Shevchenko por uma Ucrânia independente. Autor destacado na família da lírica eslava nacionalista do século XIX, o poeta haveria de fixar-se na História como um dos maiores símbolos da resistência contra o imperialismo dos czares. E o seu “Testamento” prolongou-se no tempo por diferentes linhas da frente.

 

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, a 24 de Fevereiro de 2022, Halyna Stetsenko procura nas recordações da infância os sons da natureza: os pássaros, o vento nas folhas nas árvores, o rio. É o refúgio possível perante as imagens impossíveis da guerra. Halyna sonha em regressar para ajudar a reconstruir o país onde nasceu e de onde saiu em 1995 para a Madeira, quando a crise económica se agravou após o colapso da União Soviética. No Funchal, é pianista e professora de órgão e de piano no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira. Mantém com os compositores russos a mesma relação de sempre; não percebe sequer o sentido de uma cultura do cancelamento que procura punir o passado.

 

Aos que apoiam o regime de Putin, Halyna responde com distância. E ao microfone, com o facto mais triste de todas as guerras: “muitas crianças estão mortas”. Elas nunca vão recordar a infância no meio da natureza. “Isso é impossível aceitar”.

 

AUTORIA E REALIZAÇÃO
Isabel Meira
MÚSICA
"Melodia" de Myroslav Skoryk, interpretada pelos alunos do Conservatório - Escola Profissional das Artes da Madeira
TRADUÇÃO PORTUGUESA DE "TESTAMENTO"
Versão reunida e adaptada por Halyna Stetsenko
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca