Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Testamento e Melodia

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O rio Dnipro nasce a 250 quilómetros a oeste de Moscovo, corre ao longo da Rússia em direcção à Bielorrúsia, de onde segue para a Ucrânia. Antes de morrer, o poeta Taras Shevchenko (1814-1861) deixou, no poema “Testamento”, um pedido: ser sepultado numa colina, para ver as correntes do Dnipro. O gigante rio desagua no Mar Negro, a noroeste da Península da Crimeia, depois de percorrer quase 2.300 quilómetros, e com ele a memória da luta de Taras Shevchenko por uma Ucrânia independente. Autor destacado na família da lírica eslava nacionalista do século XIX, o poeta haveria de fixar-se na História como um dos maiores símbolos da resistência contra o imperialismo dos czares. E o seu “Testamento” prolongou-se no tempo por diferentes linhas da frente.

 

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, a 24 de Fevereiro de 2022, Halyna Stetsenko procura nas recordações da infância os sons da natureza: os pássaros, o vento nas folhas nas árvores, o rio. É o refúgio possível perante as imagens impossíveis da guerra. Halyna sonha em regressar para ajudar a reconstruir o país onde nasceu e de onde saiu em 1995 para a Madeira, quando a crise económica se agravou após o colapso da União Soviética. No Funchal, é pianista e professora de órgão e de piano no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira. Mantém com os compositores russos a mesma relação de sempre; não percebe sequer o sentido de uma cultura do cancelamento que procura punir o passado.

 

Aos que apoiam o regime de Putin, Halyna responde com distância. E ao microfone, com o facto mais triste de todas as guerras: “muitas crianças estão mortas”. Elas nunca vão recordar a infância no meio da natureza. “Isso é impossível aceitar”.

 

AUTORIA E REALIZAÇÃO
Isabel Meira
MÚSICA
"Melodia" de Myroslav Skoryk, interpretada pelos alunos do Conservatório - Escola Profissional das Artes da Madeira
TRADUÇÃO PORTUGUESA DE "TESTAMENTO"
Versão reunida e adaptada por Halyna Stetsenko
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca