Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Guilherme Gomes

Sobre o autor

Nasceu em Viseu, em 1993. Estreou-se no projecto PANOS – Palcos Novas Palavras Novas, frequentou o curso de Contemporary Theatre na Royal Academy of Dramatic Arts, em Londres, e a licenciatura em Teatro, no Ramo de Actores, na Escola Superior de Teatro e Cinema. Criou os projectos Odeapessoa e Dizedor para divulgação de poesia online. Co-fundou o Teatro da Cidade. Em Teatro trabalhou com Luis Miguel Cintra, Jorge Silva Melo, João Mota, entre outros. Em 2019 venceu o prémio para Melhor Texto Português Representado, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores, pelo seu texto “que boa ideia, virmos para as montanhas”. É director artístico do projecto CRETA – laboratório de criação teatral, apoiado pelo Município de Viseu. Frequenta o Mestrado em Sociologia no ISCTE.

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