Há postos para a poesia?

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Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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“Desastre” foi publicado no jornal O Porto, em 1875. É um dos três poemas incluídos no 5º episódio d’”O Radiolivro de Cesário”, que publicámos em Março de 2022.

Criador de uma linguagem poética concreta e realista, Cesário Verde (1855-1886) foi descrito por Pessoa como um “relâmpago” na paisagem literária portuguesa de então.
A leitura, feita por Guilherme Gomes, corre sobre paisagens sonoras de lugares onde o poeta viveu, de Lisboa a Linda-a-Pastora (Oeiras).

 

 

 

Desastre

 

Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,

Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;

Caíra dum andaime e dera com o peito,

Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

 

A brisa que balouça as árvores das praças,

Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,

E dentro eu divisei o ungido das desgraças,

Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

 

Um preto, que sustinha o peso dum varal,

Chorava ao murmurar-lhe: “Homem não desfaleça!”

E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,

Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

 

Findara honrosamente. As lutas, afinal,

Deixavam repousar essa criança escrava,

E a gente da província, atônita, exclamava:

“Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!”

 

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;

Mornas essências vêm duma perfumaria,

E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,

Numa travessa escura em que não entra o dia!

 

Um fidalgote brada e duas prostitutas:

“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”

Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas

E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

 

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,

De bagas de suor tinha uma vida cheia;

Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,

Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

 

O mísero a doença, as privações cruéis

Soubera repelir – ataques desumanos!

Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos

Andara a apregoar diários de dez-réis.

 

Anoitecera então. O féretro sinistro

Cruzou com um coupé seguido dum correio,

E um democrata disse: “Aonde irás, ministro!

Comprar um eleitor? Adormecer num seio”?

 

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,

– Conservador, que esmaga o povo com impostos -,

Mandava arremessar – que gozo! estar solteiro! –

Os filhos naturais à roda dos expostos…

 

Mas não, não pode ser… Deite-se um grande véu…

De resto, a dignidade e a corrupção… que sonhos!

Todos os figurões cortejam-no risonhos

E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

 

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,

Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:

Isto porque o patrão negou-lhes a licença,

O inverno estava à porta e as obras atrasadas.

 

E antes, ao soletrar a narração do fato,

Vinda numa local hipócrita e ligeira,

Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefato:

“Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira!”

 

 

 

 

In Obra poética integral de Cesário Verde (1855-86), Dinalivro, 2013

 

data de publicação
13.01.2022
edição áudio e sonoplastia
Oriana Alves
Gravações de campo
Oriana Alves e Miguel Lucas Mendes
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca

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