Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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[A cada um as suas armas]

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A cada um as suas armas, as mulheres que amou,
os homens que defendeu do juízo moral dos outros,
a cama onde um dia se viu abandonado,
rodeado de cruzes e velas.
Das linhas que tremo, roda-me a lâmpada
interior à carne, e a claridade
chega aos ossos numa duração insaciável.

 

Falar com a minha voz depois de tantas outras,

dos condenados a quem roubaste as cartas,

copiando aquele ritmo que se aferrava à carne

e dizias que os viste cair

depois de os teres seguido para a guerra, mas agora

que já ninguém faz luto pelos rouxinóis

e toda a gente escreve poemas,

não te podes valer de mentiras

nem de verdades,
nem sequer do antepassado

enterrado num canto do pátio

— homem que teve os seus méritos.

 

Se a folha ainda me arranca um traço,

pisando-me os ossos da mão,

a distância é o meu único assunto.

De olhos fechados, entretenho-me

com a sensação de entrar em comboios remotos,

a tresandar a esquecimento para ser embalado

pela trepidação desse traço contínuo.

 

Terra e água num copo, a raiz amarga

que lá tenho escuta atentamente,

moendo tudo para épocas futuras.

Lá fora, o mar como um pássaro só

descansa, revê todos os finais,

mil capitães adormecidos enquanto os navios

se entrechocam docemente.
As noites passam em braços,
levanto a casa, feita de pedra negra.
Atraídos, os cometas caem longe

para que os sinta.

Os jardins escutam as flores,

a morte diz o nosso nome
e vimos esperá-la formando filas.

 

 

De Aurora para os Cegos da Noite (2020, Maldoror)

data de publicação
03.05.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca