Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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[A cada um as suas armas]

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A cada um as suas armas, as mulheres que amou,
os homens que defendeu do juízo moral dos outros,
a cama onde um dia se viu abandonado,
rodeado de cruzes e velas.
Das linhas que tremo, roda-me a lâmpada
interior à carne, e a claridade
chega aos ossos numa duração insaciável.

 

Falar com a minha voz depois de tantas outras,

dos condenados a quem roubaste as cartas,

copiando aquele ritmo que se aferrava à carne

e dizias que os viste cair

depois de os teres seguido para a guerra, mas agora

que já ninguém faz luto pelos rouxinóis

e toda a gente escreve poemas,

não te podes valer de mentiras

nem de verdades,
nem sequer do antepassado

enterrado num canto do pátio

— homem que teve os seus méritos.

 

Se a folha ainda me arranca um traço,

pisando-me os ossos da mão,

a distância é o meu único assunto.

De olhos fechados, entretenho-me

com a sensação de entrar em comboios remotos,

a tresandar a esquecimento para ser embalado

pela trepidação desse traço contínuo.

 

Terra e água num copo, a raiz amarga

que lá tenho escuta atentamente,

moendo tudo para épocas futuras.

Lá fora, o mar como um pássaro só

descansa, revê todos os finais,

mil capitães adormecidos enquanto os navios

se entrechocam docemente.
As noites passam em braços,
levanto a casa, feita de pedra negra.
Atraídos, os cometas caem longe

para que os sinta.

Os jardins escutam as flores,

a morte diz o nosso nome
e vimos esperá-la formando filas.

 

 

De Aurora para os Cegos da Noite (2020, Maldoror)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca