Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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[Gostam dos poemas]

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Gostam dos poemas colhidos na arca frigorífica tê-los ali em porções doseadas com as instruções sobre o tempo médio para aquecer no fogão ou no microondas gostam muito de ler o nome como a etiqueta pendurada num pé um prego enferrujado sobre a passagem deles sumariamente julgada contida um morto já calmo metido num saco hermético selado plenamente abraçado pela terra e coroado por flores das mais castas gostam de lhe sentir os dentes se não puder ferrar quando brincam a pôr a mão no fogo sendo certo que não ateará a seara nem lhes deitará uma olhada que os faça sentir cercados podem estar descansados ler um poema é um acto ao abrigo do máximo sigilo sem compromisso de qualquer espécie pode sair a meio cavar tirar o que lhe apetecer do contexto partilhar como legenda da próxima selfie suspendê-lo logo que se torne inconveniente não tem botão mas feche os olhos que é como desligar e até pode arrancar a página é o mais à vontade do freguês que possa imaginar e sim em breve haverá serviço ao cliente e um gabinete para que os utentes façam as suas reclamações também já estamos a tratar com as entidades competentes para estabelecer um sistema de garantia mas sobretudo que esteja já bem frio e o olhar ferocíssimo do poeta se detenha a partir daquela segunda data sem possibilidade de lhe crescerem unhas ou cabelos nem de assombrar seja quem for muito para breve será aprovada ainda uma directiva entre Estados para gerar confiança nos consumidores: poetas serão sempre servidos mortos

 

 

inédito

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca