Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Diogo Vaz Pinto [compacto]

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Chamado a mostrar aquilo que faz, o poeta português tem a tendência de mostrar os dentes, sorri muito, dispondo-se assim a participar nessa acareação, nessa coisa que se fazia aos cavalos e era também exigido aos escravos, um exame superficial que permitia ao potencial comprador aferir se tinha ali um espécime em que valia a pena investir. Num certo sentido, também os poetas hoje parece que publicam os seus textos de modo, não a determinarem a forma como pretendem fazer-se ler, mas a terem um pretexto para aparecer nas corridas, ser vistos, trabalhar nos campos de algodão da visibilidade e do mediatismo. Ora, sempre que me é pedido que escolha alguns dos meus textos ou poemas, faço os possíveis por tentar mostrar não os dentes mas o olho do cu, como faziam os bárbaros ou os pobres agricultores que eram chamados a participar numa batalha contra exércitos senhoriais dotados de sumptuosas forças de cavalaria e o raio. Viro-me, dobro-me, e exibo-o ao sol e aos fidalgos, eu que sou filho do acaso raivoso que me vai parindo diariamente e que não envergo qualquer outra distinção. E isto porque vejo o poema como um grito articulado para ser ouvido muito baixo, entre esses raros que estão mais atentos, e que vencem a euforia das épocas. Em relação à nossa, tenho este entendimento de que algo de nojento tomou conta de todos os espaços onde circula mais gente, e parece-me assim que, para reflectir a sua expressão, não vale a pena nem sorrir nem fazer caretas; o melhor é mesmo mostrar esta zona no corpo de cada um de nós que se livra do que há de inessencial, ou seja, das fezes. Não que o poema concorra para o regime das excrescências, mesmo das ornamentais que encontramos nos lugares hoje dedicados à arte. No fundo, o poema começa por livrar-se da etiqueta e do sufoco do que é feito para o bem das aparências. Trata-se de desafiar essa ordem infernal que se faz camuflar por meio de um sorriso, de um “like”, entre outras formas de anuência. Não temos muito do que estar contentes. Não vejo motivo para os poetas buscarem o seu lugar num ranking que necessariamente os desfavorece. O que me parece admirável num poema é o modo particular de traduzir certos aspectos deste inferno que nos envolve até se nos meter debaixo da pele, mesmo quando o que o poema exprime são as relações que lhe escapam, que nos servem de alívio, de maravilhamento. Se os poetas estão sempre numa relação desfavorável, se não têm armaduras com motivos florais e nem cavalos para os elevar acima do nível da geral infantaria, parece-me que isso os coloca na relação ideal: a do um para um. E, face a tudo o que nos cerca hoje, tenho como principal orientação esse desejo de fazer a guerra às claras, de provocar o inimigo, fazê-lo exibir as suas verdadeiras cores, para que o conflito que geralmente nos faz de forma dissimulada seja assumido, para que tenha de se explicar, e não possa simplesmente impor como senso comum um conjunto de noções que tornam impossível a vida, e nos lançam no regime da mera sobrevivência.

 

Diogo Vaz Pinto

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca