Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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[Que queres que te diga]

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para o David

 

Que queres que te diga?

Não estamos velhos, se isso te consola.

Mas também já soa mais a conversa.

Uns passos fora e as paisagens

já nos arreganham os dentes.

Entre fósforos apagados e calcanhares de aquiles,

eriçaram-se flores na carcaça do animal

que ia levar-nos daqui.

 

Baixou uma névoa não sei de onde,

e ando há semanas fodido
com os correios que já não asseguram
serviço de e para Pasárgada.

Ouve o que te digo: esta coisa

da realidade

está a meter água por todos os lados

e quem não se mandar agora
já não sai.

 

Qual poesia, qual caralho!
Depois de bater tudo, de ver os magrelas
dos cães a guerrearem por côdeas
entre os sacos de lixo da morte,

o que te digo é: nem faças as malas.

Onde quer que a gente venha

a fincar a bandeira dos ossos,

o passado só irá atrapalhar.

 

 

De Aurora para os Cegos da Noite (2020, Maldoror)
 

 

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca