Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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[Que queres que te diga]

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para o David

 

Que queres que te diga?

Não estamos velhos, se isso te consola.

Mas também já soa mais a conversa.

Uns passos fora e as paisagens

já nos arreganham os dentes.

Entre fósforos apagados e calcanhares de aquiles,

eriçaram-se flores na carcaça do animal

que ia levar-nos daqui.

 

Baixou uma névoa não sei de onde,

e ando há semanas fodido
com os correios que já não asseguram
serviço de e para Pasárgada.

Ouve o que te digo: esta coisa

da realidade

está a meter água por todos os lados

e quem não se mandar agora
já não sai.

 

Qual poesia, qual caralho!
Depois de bater tudo, de ver os magrelas
dos cães a guerrearem por côdeas
entre os sacos de lixo da morte,

o que te digo é: nem faças as malas.

Onde quer que a gente venha

a fincar a bandeira dos ossos,

o passado só irá atrapalhar.

 

 

De Aurora para os Cegos da Noite (2020, Maldoror)
 

 

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca