Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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A minha História é uma Grécia onde não fui

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(escrito com António, Henrique, Maria Manuela e Marília, do Recolhimento da Encarnação, em 2013)

 

 

A minha História é uma Grécia onde não fui.

 

A minha Grécia é Nova Iorque, que não vi.

A minha Nova Iorque é o amor que não tive.

 

A minha Grécia é Angola, e Angola não é minha.

O mulato não tem senão a terra em que caminha.

 

A minha Angola são 50 anos em casa da minha mãe.

 

É ter visto pela rádio o sol da Califórnia.

É em 75 ter namorada, não ter que fugir.

 

A minha História bem contada era um casamento rápido em Las Vegas.

 

A minha Nova Iorque era não ter casado nunca.

A minha Las Vegas são as minhas filhas, onde deixei tudo.

 

A minha História é ter ido a jogo.

 

É ter perdido sempre.

 

A minha Grécia é ter um quarto.

 

A minha mãe morreu.

 

*

 

A História é termos sido duzentos, sermos três.

É das sete vidas que tínhamos termos gastado seis.

É ter seis meses para sair a contar do dia da morte.

 

É o ano de 29, a cegueira do pai, o princípio do fim.

 

É não ter terra, não ter renda, não ter rosa,

e não ter, para o caminho de volta, prosa.

 

É saber que a morada que nos resta é na Pena

onde se chega por fim, para o fim, por via torta.

 

Meu parêntesis por ora.

 

*

 

Terra prometida

(Não nos prometeram mais)

 

Guarda-nos da chuva.

Dispensa-nos de bússolas.

 

Cave aconchegada teia cova

 

[…]

*

É tarde demais para ser tarde demais.

 

Penumbra clausura

Tenho planos latos

E sensações de luz

 

Quero ir morar em espaços em branco.

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Mais de mil anos (2017, Douda Correria)

 

 

 

gravação é edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca