Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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A minha História é uma Grécia onde não fui

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(escrito com António, Henrique, Maria Manuela e Marília, do Recolhimento da Encarnação, em 2013)

 

 

A minha História é uma Grécia onde não fui.

 

A minha Grécia é Nova Iorque, que não vi.

A minha Nova Iorque é o amor que não tive.

 

A minha Grécia é Angola, e Angola não é minha.

O mulato não tem senão a terra em que caminha.

 

A minha Angola são 50 anos em casa da minha mãe.

 

É ter visto pela rádio o sol da Califórnia.

É em 75 ter namorada, não ter que fugir.

 

A minha História bem contada era um casamento rápido em Las Vegas.

 

A minha Nova Iorque era não ter casado nunca.

A minha Las Vegas são as minhas filhas, onde deixei tudo.

 

A minha História é ter ido a jogo.

 

É ter perdido sempre.

 

A minha Grécia é ter um quarto.

 

A minha mãe morreu.

 

*

 

A História é termos sido duzentos, sermos três.

É das sete vidas que tínhamos termos gastado seis.

É ter seis meses para sair a contar do dia da morte.

 

É o ano de 29, a cegueira do pai, o princípio do fim.

 

É não ter terra, não ter renda, não ter rosa,

e não ter, para o caminho de volta, prosa.

 

É saber que a morada que nos resta é na Pena

onde se chega por fim, para o fim, por via torta.

 

Meu parêntesis por ora.

 

*

 

Terra prometida

(Não nos prometeram mais)

 

Guarda-nos da chuva.

Dispensa-nos de bússolas.

 

Cave aconchegada teia cova

 

[…]

*

É tarde demais para ser tarde demais.

 

Penumbra clausura

Tenho planos latos

E sensações de luz

 

Quero ir morar em espaços em branco.

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Mais de mil anos (2017, Douda Correria)

 

 

 

gravação é edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca