Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Então passou o tempo e as curvas

E os caminhos trouxeram-nos aqui

 

Um lugar onde dar voltas em torno

 

*

 

Então espalhar-se pelos bairros.

Tomar de assalto Tunísias caseiras.

Desmanchar povoados, linhas férreas, calendários.

Ocupar os tempos que estiverem vivos.

 

Tomar conta uns dos outros.

 

Começar por algum lado. Parar. Onde houver redor

dos pés e cheiros. Sob céus estranhos. Ouvir. E ver,

se alguma luz houver. Envolver-se em panos negros.

 

Cambalear por entre as linhas da lei das rendas. Lançar

cuspo sobre os reinos da terra. Estender as mãos. Com

carvões acesos elevar a voz. Devorar-se vivo. No lugar.

 

*

 

Rasgar teoremas, carnes, laranjas maduras. De manhã partir.

Levar nos bolsos preciosidades, fios, ruínas, espinhos, terra,

covardias, pequenos purgatórios, bagos de arroz, colheres,

anzóis, molhos inúteis de chaves, tempos, prodígios vários.

Correr atrás de todos os rostos. Cansar-se. Abreviar os dias.

Anoitecer, suster a respiração. Perdurar. Livrar-se da língua

materna. Produzir sons. Não ter nada a dizer sobre si mesmo

senão que haverá algo atrás de algo. Talvez. Estes solavancos.

Isto. Algo a arder de alto a baixo. Estar assim rodeado ainda.

Esgueirar-se pelo ângulo morto de claros inimigos imaginados.

Amontoar-se para passar a noite a salvo, aqui. E amarrar-se

a correntes e cadeados, como as cadeiras e mesas de esplanada.

Esperar e então seguir o rasto das iluminações eléctricas. Chegar

a casa. Bem. Uma casa. Onde clarear porque vem ao antebraço

o fruto de candeeiros. Ficar por cá. Onde houver à mão um ferro

atravessado, quatro cabides. Povoar. Aprender então os costumes.

 

 

Apagar-se. Amanhecer amanhã. Triunfar.

 

Amanhã.

 

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Víveres (2017, Tinta-da-China)

 

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca