Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Então passou o tempo e as curvas

E os caminhos trouxeram-nos aqui

 

Um lugar onde dar voltas em torno

 

*

 

Então espalhar-se pelos bairros.

Tomar de assalto Tunísias caseiras.

Desmanchar povoados, linhas férreas, calendários.

Ocupar os tempos que estiverem vivos.

 

Tomar conta uns dos outros.

 

Começar por algum lado. Parar. Onde houver redor

dos pés e cheiros. Sob céus estranhos. Ouvir. E ver,

se alguma luz houver. Envolver-se em panos negros.

 

Cambalear por entre as linhas da lei das rendas. Lançar

cuspo sobre os reinos da terra. Estender as mãos. Com

carvões acesos elevar a voz. Devorar-se vivo. No lugar.

 

*

 

Rasgar teoremas, carnes, laranjas maduras. De manhã partir.

Levar nos bolsos preciosidades, fios, ruínas, espinhos, terra,

covardias, pequenos purgatórios, bagos de arroz, colheres,

anzóis, molhos inúteis de chaves, tempos, prodígios vários.

Correr atrás de todos os rostos. Cansar-se. Abreviar os dias.

Anoitecer, suster a respiração. Perdurar. Livrar-se da língua

materna. Produzir sons. Não ter nada a dizer sobre si mesmo

senão que haverá algo atrás de algo. Talvez. Estes solavancos.

Isto. Algo a arder de alto a baixo. Estar assim rodeado ainda.

Esgueirar-se pelo ângulo morto de claros inimigos imaginados.

Amontoar-se para passar a noite a salvo, aqui. E amarrar-se

a correntes e cadeados, como as cadeiras e mesas de esplanada.

Esperar e então seguir o rasto das iluminações eléctricas. Chegar

a casa. Bem. Uma casa. Onde clarear porque vem ao antebraço

o fruto de candeeiros. Ficar por cá. Onde houver à mão um ferro

atravessado, quatro cabides. Povoar. Aprender então os costumes.

 

 

Apagar-se. Amanhecer amanhã. Triunfar.

 

Amanhã.

 

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Víveres (2017, Tinta-da-China)

 

data de publicação
11.03.2022
gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca