Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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O dia começa pela sombra

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Virá o dia em que emperrará

a assídua manivela das horas

 

Entretanto o ar engendra

o tempo e lenta a ferrugem

 

e a verdadeira vida

range e engasga-se

 

*

 

Olho por longo tempo

 

Confirma-se: os atalhos estão impraticáveis

 

(aceno a cézanne e cesariny

salut jean-arthur como está aí o tempo

em terra nullius)

 

O dia a puxar por perras correntes de ar

 

Lá arranca sem mistério

o primeiro minuto matinal

 

hora entreaberta

 

e eu perro das mãos

à boca e ao relento

 

Estamos muito à frente em termos de vento

 

Não há vento que nos não venha

 

 

Não chegaremos a Ítaca

mas chegaremos despenteados

 

a qualquer lado

 

*

 

E lá arranca sem mistério o segundo minuto matinal

 

Nem me acode o ranger habitual

de pescoço em baço acorde

nem uma rima imperfeita

para me acostumar ao fosco

 

O ar está em lantejoulas, o que não ajuda

Era suposto ondular

 

Porra

Para alguma coisa me fiz míope:

 

dizem que ajuda a atravessar as trevas

 

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Os Engenhos Necessários (2014, &etc)

 

data de publicação
08.03.2022
gravação e edição
Oriana Alves
masterização
PontoZurca