Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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O dia começa pela sombra

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Virá o dia em que emperrará

a assídua manivela das horas

 

Entretanto o ar engendra

o tempo e lenta a ferrugem

 

e a verdadeira vida

range e engasga-se

 

*

 

Olho por longo tempo

 

Confirma-se: os atalhos estão impraticáveis

 

(aceno a cézanne e cesariny

salut jean-arthur como está aí o tempo

em terra nullius)

 

O dia a puxar por perras correntes de ar

 

Lá arranca sem mistério

o primeiro minuto matinal

 

hora entreaberta

 

e eu perro das mãos

à boca e ao relento

 

Estamos muito à frente em termos de vento

 

Não há vento que nos não venha

 

 

Não chegaremos a Ítaca

mas chegaremos despenteados

 

a qualquer lado

 

*

 

E lá arranca sem mistério o segundo minuto matinal

 

Nem me acode o ranger habitual

de pescoço em baço acorde

nem uma rima imperfeita

para me acostumar ao fosco

 

O ar está em lantejoulas, o que não ajuda

Era suposto ondular

 

Porra

Para alguma coisa me fiz míope:

 

dizem que ajuda a atravessar as trevas

 

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Os Engenhos Necessários (2014, &etc)

 

gravação e edição
Oriana Alves
masterização
PontoZurca