Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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O dia começa pela sombra

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Virá o dia em que emperrará

a assídua manivela das horas

 

Entretanto o ar engendra

o tempo e lenta a ferrugem

 

e a verdadeira vida

range e engasga-se

 

*

 

Olho por longo tempo

 

Confirma-se: os atalhos estão impraticáveis

 

(aceno a cézanne e cesariny

salut jean-arthur como está aí o tempo

em terra nullius)

 

O dia a puxar por perras correntes de ar

 

Lá arranca sem mistério

o primeiro minuto matinal

 

hora entreaberta

 

e eu perro das mãos

à boca e ao relento

 

Estamos muito à frente em termos de vento

 

Não há vento que nos não venha

 

 

Não chegaremos a Ítaca

mas chegaremos despenteados

 

a qualquer lado

 

*

 

E lá arranca sem mistério o segundo minuto matinal

 

Nem me acode o ranger habitual

de pescoço em baço acorde

nem uma rima imperfeita

para me acostumar ao fosco

 

O ar está em lantejoulas, o que não ajuda

Era suposto ondular

 

Porra

Para alguma coisa me fiz míope:

 

dizem que ajuda a atravessar as trevas

 

 

 

 

Miguel Cardoso

excerto de Os Engenhos Necessários (2014, &etc)

 

gravação e edição
Oriana Alves
masterização
PontoZurca