Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Papai nos céus
Você que morreu

Pelos meus pecados.

 

Sou uma velha sem fígado
O cigarro queimou meu cérebro

Meu tudo está desligado
Eu cresci e multipliquei no bairro.

 

Zé o maior com a idade núbil
Tornando uma utilidade vil
Vive até agora com sua madrinha
Pedro mudou para o Rio de Janeiro para nadar

E sua vida acabou em nada

Por balas perdidas da polícia nas favelas.

 

Marco, Lúcia e Jacó exorcizam o demônio

Com a fumaça de maconha no bairro.

 

Papai nos céus

 

Alegria entra e sai de mim

Como o sabor de açaí
O suor da noite da cité cai

Sobre meu colchão

E minha calcinha não pode secar o chão

 

Meu amor é míope
E a vida nunca me sorri

 

Papai nos céus

 

Minha casa é como a Prisão de Guantánamo

Onde as torturas do dia me amortalham

Ouça as minhas palavras que te atrapalham

No teu paraíso dos falecidos

Amém!

 

gravação
Rei Seely
masterização
Sérgio Milhano, POntoZurca