Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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Vila das Torres

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Vil ar – das Torres

 

Vim lá das Torres!

 

Fala, Dona Eliaza! Como você aguenta a esperança aqui no bairro? Minha vida erra numa amerdura eufórica. Sou um produto social enxovalhado, uma herança umbilical fadada à carência. Olha para mim, meu filho! Os tecidos dérmicos da minha vaidade, sendo precipitados pela melancolia. A flor de meu Verão está murchada, decrepitada. Meu sorriso parece asfixiado com a fumaça de minhas trinta e cinco velinhas. Nasci, cresci, procriei aqui… Tudo mudou, nada muda!

O som do DJ do bairro não para de poluir o meio ambiente. Os beatmakers são os herdeiros; as batidas e a lírica-bereta não param de perturbar os humildes. Eles sabem tocar qualquer ritmo: jazz, reggae, rock, rap, samba… Olha para a rua, nas madrugadas! Nas lixeiras do Batel, dos condomínios, do centro dos mercados, dos restaurantes, das esquinas de petit-pavé. Meus vizinhos e seus cachorros: têm uma vida barata, preparando o nascer do sol para as carroças trazerem de tudo e de nada rumo à triagem… Este bairro é o órgão limpador, o rim do centro da cidade. A maioria dos cidadãos daqui cuida da cidade para poder sustentar a família.

 

Meu filho! Estou completamente vazia… Vazia! O cheiro podre do bairro envelhece as crianças, as mulheres em gravidez, os surdos-mudos, os inválidos e cria mais esquizofrênicos ambulantes. Estou ressecada! Consumo o absinto da vida. Estou cansada de ver meus dois filhos felizes e tudo isso… Oh vida! Oh Deus do coração, você sabe dar, você não sabe compartilhar: é a vida nas favelas!

 

 

gravação
Rei Seely
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca