Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Vila das Torres

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Vil ar – das Torres

 

Vim lá das Torres!

 

Fala, Dona Eliaza! Como você aguenta a esperança aqui no bairro? Minha vida erra numa amerdura eufórica. Sou um produto social enxovalhado, uma herança umbilical fadada à carência. Olha para mim, meu filho! Os tecidos dérmicos da minha vaidade, sendo precipitados pela melancolia. A flor de meu Verão está murchada, decrepitada. Meu sorriso parece asfixiado com a fumaça de minhas trinta e cinco velinhas. Nasci, cresci, procriei aqui… Tudo mudou, nada muda!

O som do DJ do bairro não para de poluir o meio ambiente. Os beatmakers são os herdeiros; as batidas e a lírica-bereta não param de perturbar os humildes. Eles sabem tocar qualquer ritmo: jazz, reggae, rock, rap, samba… Olha para a rua, nas madrugadas! Nas lixeiras do Batel, dos condomínios, do centro dos mercados, dos restaurantes, das esquinas de petit-pavé. Meus vizinhos e seus cachorros: têm uma vida barata, preparando o nascer do sol para as carroças trazerem de tudo e de nada rumo à triagem… Este bairro é o órgão limpador, o rim do centro da cidade. A maioria dos cidadãos daqui cuida da cidade para poder sustentar a família.

 

Meu filho! Estou completamente vazia… Vazia! O cheiro podre do bairro envelhece as crianças, as mulheres em gravidez, os surdos-mudos, os inválidos e cria mais esquizofrênicos ambulantes. Estou ressecada! Consumo o absinto da vida. Estou cansada de ver meus dois filhos felizes e tudo isso… Oh vida! Oh Deus do coração, você sabe dar, você não sabe compartilhar: é a vida nas favelas!

 

 

gravação
Rei Seely
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca