Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Declaração de falência

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durante muitos anos

estudei o comportamento

das coisas em lugares ermos

sentado a toda a distância

das estradas

 

aí, onde a utilidade é quase inacessível,

detectei indícios de um funcionamento

caprichoso, muito além de qualquer

aparente programação

 

assim consegui provar a existência

de várias dimensões

até não pertencer a nenhuma delas

 

e no lugar onde fiquei, de pé e a custo

um falhanço passou a ser apenas

uma viagem

um silêncio não consentido

cada instante um conjunto de coisas

que não sucederam, agruras inventadas

de um homem inventado

 

neste estado absoluto

de impossibilidade

persegui por escrito

uma cidade à queima-roupa

uma grande oferta de vazio

o centro do labirinto: apenas um labirinto

ainda maior

 

vedado que me é poder viver

todas as possibilidades

ao mesmo tempo

 

observo então o pensamento:

como ele surge repentino

na reintegração de um ponto

de possível fuga para dentro

uma narrativa límpida e épica

por que não minha

 

mera expectativa

de uma passagem antecipada

por todas as faces da infância

rodeado

por todas as pessoas

por todos os meus objectos

 

é ainda um triste lugar

o lugar das grandes coisas

das procissões permanentes

uma urgência que abre

uma porta líquida

no meu peito

por onde entrei

sem saber nadar

 

foi então preciso inventar

o espaço da literatura

para aí guardar umas vidas

e poder viver outras

até perder

toda a contemporaneidade

 

agora já não posso dizer

que o vento me quebra o corpo

— sou da neblina

 

eis-me assim chegado

ao primeiro sequestro

da irreversibilidade

 

pois bem, durante anos andei

por aí a matar coisas

por excesso de atenção

 

e hoje já nem sei quanto vale

o meu nome

 

 

 

 

De Uma Fotografia Apontada à Cabeça (2019, ed. Abysmo)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca