Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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[Depois de quase termos morrido]

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depois de quase termos morrido

juntos: nada

 

dobrado o cabo do silêncio

o desejo não existiu além

de duas montras

 

dois escombros do que outrora foi

um comércio entre deuses em delírio

colhendo frutos abrindo flores

sobre os negros veios da madeira

 

aí, onde por vezes deixámos

de existir por falta de distância

atraídos por uma sede inevitável

de tão quente: nada

 

agora, com os         dedos feridos

pela acidez de uma        boca fechada

acaricio

fellatios em ruínas
cópulas perdidas
fomes velhas

que escolhem a rua

para ir lamber os teus restos

incuráveis

 

nem submersos recuperam

do crime da saciedade

 

poderia dizer-se: nada

 

tudo isso não passa

de um retrato sórdido

do quarto onde

sem saber

abríamos pernas

tempo e tecto

ao silêncio

que nunca nos absolveu

 

de nós alguém poderia dizer:

nada

 

mas quem sabe

se o fracasso nos salvou

 

 

 

 

 

De Uma Fotografia Apontada à Cabeça (2019, ed. Abysmo)

 

 

 

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca