Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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[Quando digo que a poesia]

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quando digo que a poesia

me salvou a vida

não estou a usar uma figura

de expressão

 

nem tão pouco interessa saber

se um poema é bom ou mau

ao ponto de mudar seja o que for

 

digo que a poesia me salvou a vida

porque um dia pousei sem querer

os olhos numa frase do Robert Frost:

 

um poema começa com um nó na garganta

 

caro leitor, não me entendas mal:

acho esta frase uma bela merda

 

e por essa altura nem sequer gostava de poesia

 

mas, talvez por dúvida ou apenas ironia,

tirei a corda do pescoço

e fui escrever

 

 

 

 

De O Escultor de Pássaros Livres (2021, Nova Mymosa)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca