Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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[Quando digo que a poesia]

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quando digo que a poesia

me salvou a vida

não estou a usar uma figura

de expressão

 

nem tão pouco interessa saber

se um poema é bom ou mau

ao ponto de mudar seja o que for

 

digo que a poesia me salvou a vida

porque um dia pousei sem querer

os olhos numa frase do Robert Frost:

 

um poema começa com um nó na garganta

 

caro leitor, não me entendas mal:

acho esta frase uma bela merda

 

e por essa altura nem sequer gostava de poesia

 

mas, talvez por dúvida ou apenas ironia,

tirei a corda do pescoço

e fui escrever

 

 

 

 

De O Escultor de Pássaros Livres (2021, Nova Mymosa)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca