Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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nesse tempo

só tínhamos saudades

do que ainda não vivêramos

 

era o tempo

em que não havia última onda

entre dois pontões — esse lugar sem lugar

onde nunca foi possível ficar

 

fazíamos viagens quase sem motivo

— regressar bastava

 

andar à volta do quarteirão bastava

para termos a sensação de respirar

um ar nocturno estrangeiro

acabado de chegar

 

viver era por si só suficiente

e nenhuma angústia era capaz

de estancar a deslocação dos dias

 

o futuro era ainda uma promessa

que não continha qualquer ameaça

 

e ao tédio de cada um

juntávamos outro

e mais outro

 

até formar uma cascata

 

 

 

 

De O Escultor de Pássaros Livres (2021, Nova Mymosa)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca