Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Cesário Verde

Sobre o autor

Inaugura uma linguagem poética concreta, realista e livre de sentimentalismos, para a qual os portugueses não estavam preparados. Então, os autores românticos dominavam as letras, fazendo soltar suspiros e ais. Incompreendido pela forma lúcida como escrevia, ora enaltecendo o trabalho do campo ou beleza feminina ora denunciando a crueza da pobreza nacional, Cesário recebeu fortes críticas aos seus poemas - publicados em jornais nacionais - por vultos como Ramalho Ortigão ou Teófilo Braga. Palavras contundentes eram lançadas contra Cesário a partir de jornais como As Farpas ou o Diário Ilustrado. O seu rasgo será reconhecido anos depois de ter falecido, desde logo por Fernando Pessoa, que o considerava um mestre. O crítico literário, ensaísta, dramaturgo e romancista Silva Pinto, amigo de Cesário, encarregou-se de reunir os seus poemas em «O Livro de Cesário Verde», após a sua morte por tuberculose, em 1886, doença de que sofria desde 1877 e que lhe levou a irmã e o pai. Cesário Verde nasce em Lisboa, em 1855, no seio de uma família abastada de ascendência genovesa. Reparte o tempo entre a vida citadina e a quinta da família, em Linda-a-Pastora, e apesar de ter-se matriculado no curso de Letras não termina os estudos. Tem uma vida social discreta e ocupa grande parte do tempo a trabalhar como comerciante no negócio do pai na baixa de Lisboa.

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