Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Cesário Verde

Sobre o autor

Inaugura uma linguagem poética concreta, realista e livre de sentimentalismos, para a qual os portugueses não estavam preparados. Então, os autores românticos dominavam as letras, fazendo soltar suspiros e ais. Incompreendido pela forma lúcida como escrevia, ora enaltecendo o trabalho do campo ou beleza feminina ora denunciando a crueza da pobreza nacional, Cesário recebeu fortes críticas aos seus poemas - publicados em jornais nacionais - por vultos como Ramalho Ortigão ou Teófilo Braga. Palavras contundentes eram lançadas contra Cesário a partir de jornais como As Farpas ou o Diário Ilustrado. O seu rasgo será reconhecido anos depois de ter falecido, desde logo por Fernando Pessoa, que o considerava um mestre. O crítico literário, ensaísta, dramaturgo e romancista Silva Pinto, amigo de Cesário, encarregou-se de reunir os seus poemas em «O Livro de Cesário Verde», após a sua morte por tuberculose, em 1886, doença de que sofria desde 1877 e que lhe levou a irmã e o pai. Cesário Verde nasce em Lisboa, em 1855, no seio de uma família abastada de ascendência genovesa. Reparte o tempo entre a vida citadina e a quinta da família, em Linda-a-Pastora, e apesar de ter-se matriculado no curso de Letras não termina os estudos. Tem uma vida social discreta e ocupa grande parte do tempo a trabalhar como comerciante no negócio do pai na baixa de Lisboa.

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