Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Boas noites

 

 

 

 

Estava uma lavadeira

A lavar numa ribeira,

Quando chega um caçador:

 

– Boas tardes, lavadeira!

 

«Boas tardes, caçador!

 

– Sumiu-se-me a perdigueira

Ali naquela ladeira;

Não me fazeis o favor

De me dizer se a brejeira

Passou aqui a ribeira?

 

«Olhe que dessa maneira,

Até um dia, senhor,

Perdereis a caçadeira,

Que ainda é perda maior.

 

– Que me importa, lavadeira!

Aqui na minha algibeira

Trago dobrado valor…

Assim eu fora senhor

De levar a vida inteira

Só a ver o meu amor

Lavar roupa na ribeira!…

 

«Talvez que fosse melhor…

Ver coser a costureira!

Vir de ladeira em ladeira

Apanhar esta canseira,

E tudo só por amor

De ver uma lavadeira

Lavar roupa na ribeira…

É escusado, senhor!

 

– Boas noites… lavadeira!

 

«Boas noites, caçador!…

 

 

 

 

 

João de Deus

In Campo de Flores I, João de Deus (Europa-América, s/data, pp. 235-36)

 

texto
João de Deus
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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