Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

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Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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ontem me meti a comer um bolo americano

não um bolo norte-americano

não um bolo conivente

um bolo de maçã não uma apple pie

um bolo de maçãs escuras

importadas da argentina

ou de maçãs fuji claras e novinhas

de todo jeito não eram maçãs colhidas à força e

à força enfiadas no fundo de formas

mordi maçãs do bolo de maçã

e reconheci não o cheiro da casca

mas a trajetória da casca

próxima a fronteiras invadidas

casas queimadas até o chão

caixas de mingau pisoteadas

nunca descasco maçãs

nunca como a polpa tirada com colher

como uma pessoa pequena e desdentada

uma vizinhança bombardeada por

maçãs foi o que reconheci

cravar uma maçã nas costas de alguém e esperar

que apodreça que ideia terrível!

pessoas seguem sem lugar para estar

e suas casas simplesmente não podem

ser maçãs

na cidade da “grande maçã” à espreita

estão funcionários prontos pra cumprir

ordens de extirpar cercas vivas

onde crescem aos montes maçãs

depois do bolo

de madrugada

não consegui levantar a tempo e vomitei em mim

restos apáticos de maçã

também maçãs inteiras com cabinho

maçãs desertoras do exército de maçãs

fiz que sim com a cabeça pra elas

e as ajudei em seu caminho de volta

porque sou uma rebelde de verdade

mas também porque sou muito enganada

pela ilusão de que é possível

comer e deitar

comer maçãs e logo depois deitar

 

 

 

Inédito

gravação
Julia Raiz
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca