Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Vénus II

 

 

 

Singra o navio. Sob a água clara

Vê-se o fundo do mar, de areia fina…

­— Impecável figura peregrina,

A distância sem fim que nos separa!

 

Seixinhos da mais alva porcelana,

Conchinhas tenuemente cor de rosa,

Na fria transparência luminosa

Repousam, fundos, sob a água plana.

 

E a vista sonda, reconstrui, compara.

Tantos naufrágios, perdições, destroços!

— Ó fúlgida visão, linda mentira!

 

Róseas unhinhas que a maré partira…

Dentinhos que o vaivém desengastara…

Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

 

 

 

 

Camilo Pessanha

In Clepsidra e Outros Poemas de Camilo Pessanha (Edições Ática, 1969, p. 197)

 

texto
Camilo Pessanha
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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