Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Manuela de Freitas

Sobre o autor

Atriz e poeta, nasceu em Lisboa a 4 de Setembro de 1940. Nos palcos, iniciou-se no Teatro da Casa da Comédia, sob a direção de Fernando Amado. Foi cofundadora de A Comuna - Teatro de pesquisa, em 1972. Recebeu o Prémio Bordalo por duas vezes, na categoria de Teatro. No cinema, estreou-se em O Passado e o Presente, de Manoel de Oliveira. Participou em filmes de João César Monteiro, Rita Azevedo Gomes, Margarida Gil e Jorge Silva Melo. Em 1989, recebeu o Prémio Garrett, para Melhor Interpretação Feminina na peça Final. Escreveu letras para músicas de José Mário Branco, seu companheiro de vida. A 6 de junho de 2008, foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

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