Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Mário Viegas

Sobre o autor

Mário Viegas foi uma das figuras mais carismáticas do teatro português e um prodigioso “dizedor” de poesia. Nasceu a 10 de novembro de 1948, em Santarém, "trineto do grande actor cómico Francisco Leoni, neto e filho de republicanos e anti-fascistas". Estreou-se como ator-recitador aos 16 anos, no Coro de Amadores de Música, dirigido por Fernando Lopes-Graça, e profissionalmente em 1968, com 19 anos, no Teatro Experimental de Cascais. Em 1975 estreou-se como ator de cinema n’O Funeral do Patrão, de Eduardo Geada. Em 1976 integrou o grupo fundador d'A Barraca, onde interpretou um D. João VI (1979) que lhe valeu o prémio de melhor ator no Festival de Teatro de Sitges. Gravou uma vasta discografia de leituras em voz alta, dando a conhecer a obra de grandes poetas portugueses, sobretudo do século XX. Na televisão apresentou os programas Palavras Ditas (1986) e Palavras Vivas (1990). Em 1991, fundou a Companhia Teatral do Chiado e em 1994 recebeu a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. No ano seguinte candidatou-se à presidência da república com o slogan «O Sonho ao Poder». Morreu no Dia das Mentiras, 1 de Abril, de 1996.

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