Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Periclitam os grilos

 

 

 

 

Periclitam os grilos:

a noite é nada.

Quem tem filhos tem cadilhos.

(Que quadra tão bem rimada!)

 

Não espere, leitor, que eu diga:

«Debaixo daquela arcada…»

Não venho fazer intriga:

versejo só – e mais nada.

 

Assim o terceiro verso

desta tirada

(reparou que é um provérbio?)

não significa mais nada.

 

Se a noite é nada e os grilos

não estão de asa parada,

não vou puxar, só por isso,

o fio à sua meada,

 

leitor que me pede história

que já traz engatilhada,

leitor que não se habitua

a que não aconteça nada

 

em poesia que comece

como esta foi começada

e acabe como esta

vai ser agora acabada…

 

 

 

Alexandre O’Neill

In Alexandre O’Neill – Poesias Completas (Assírio & Alvim, 2000, p. 140)

 

texto
Alexandre O'Neill
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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