Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Aquela nuvem

 

 

– É tão bom ser nuvem,

ter um corpo leve,

e passar, passar.

 

– Leva-me contigo.

Quero ver Granada.

Quero ver o mar.

 

– Granada é longe,

o mar é distante,

não podes voar.

 

– Para que te serve

ser nuvem, se não

me podes levar?

 

– Serve para te ver.

E passar, passar.

 

 

 

 

Eugénio de Andrade

 

De Aquela nuvem e outras. Poemas de Eugénio de Andrade ilustrados por Júlio Resende (Edições ASA, 1986)

data de publicação
20.09.2022
texto
Eugénio de Andrade
SELEÇÃO E INTERPRETAÇÃO
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimentos
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique.

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