Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Não sei, ama, onde era

 

 

 

Não sei, ama, onde era,

Nunca o saberei…

Sei que era Primavera

E o jardim do rei…

(Filha, quem o soubera!…).

 

Que azul tão azul tinha

Ali o azul do céu!

Se eu não era a rainha,

Porque era tudo meu?

(Filha, quem o adivinha?).

 

E o jardim tinha flores

De que não me sei lembrar…

Flores de tantas cores…

Penso e fico a chorar…

(Filha, os sonhos são dores…).

 

Qualquer dia viria

Qualquer coisa a fazer

Toda aquela alegria

Mais alegria nascer

(Filha, o resto é morrer…).

 

Conta-me contos, ama…

Todos os contos são

Esse dia, e jardim e a dama

Que eu fui nessa solidão…

 

 

 

Fernando Pessoa

In http://arquivopessoa.net/textos/2479

 

texto
Fernando Pessoa
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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