Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta
Partilhar

Romance de D. João

 

 

 

 

Foi-se D. João,

foi à sua vida,

sem dificuldade

saltou pelo muro,

não voltou senão

quando ao outro dia

já fazia escuro.

Vinha enfarruscado,

partida a viola,

o boné ao lado,

rasgado o calção

e a camisola.

Fiz-lhe uma carícia,

não me respondeu,

foi-se encafuar

perto do borralho

arrastando o pé.

Percebi então

que não vinha bem.

Que desgosto teve?

Com quem se bateu?

Disputas de gatos

em pleno Janeiro?

Ou foi antes cão

que o filou primeiro?

Nada perguntei

por delicadeza,

mas que fora coça,

da rija, da boa,

da que deixa mossa

para a vida toda,

isso bem se via.

Queria ajudá-lo,

não só por carinho:

custa tanto vê-lo

metido na fossa

da melancolia!

E para acabar

quase me atrevia

a pedir que guardem

muito bem guardado

tudo isto em segredo.

E muito obrigado.

 

 

 

 

Eugénio de Andrade

in Aquela nuvem e outras. Poemas de Eugénio de Andrade ilustrados por Júlio Resende (Edições ASA, 1986)

texto
Eugénio de Andrade
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

Peças relacionadas