Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Poema pial

 

 

 

 

Toda a gente que tem as mãos frias

Deve metê-las dentro das pias.

 

Pia número UM,

Para quem mexe as orelhas em jejum.

 

Pia número DOIS,

Para quem bebe bifes de bois.

 

Pia número TRÊS,

Para quem espirra só meia vez.

 

Pia número QUATRO,

Para quem manda as ventas ao teatro.

 

Pia número CINCO,

Para quem come a chave do trinco.

 

Pia número SEIS,

Para quem se penteia com bolos-reis.

 

Pia número SETE,

Para quem canta até que o telhado se derrete.

 

Pia número OITO,

Para quem quebra nozes quando é afoito.

 

Pia número NOVE,

Para quem se parece com uma “cóve”.

 

Pia número DEZ,

Para quem cola selos nas unhas dos pés.

 

E, como as mãos já não estão frias,

Tampa nas pias!

 

 

 

 

Fernando Pessoa

In http://arquivopessoa.net/textos/4284

texto
Fernando Pessoa
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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