Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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seis horas da manhã

o homem e seu suco de laranja

dentes podres se desprendem

nas migalhas no prato mergulham

o homem cata um por um

coloca de volta na boca

chupa mastiga engole

o homem flutua até o banheiro

escova com sangue a língua

ensopa de mijo a marmita do almoço

dá descarga

 

meio-dia

o homem caga no banheiro do chefe

esfrega o cu na agenda do gerente

envia por fax a sua merda empoeirada

divide a marmita com os colegas preferidos

o arroz e sua camada amarela

alimenta o ranço

 

duas horas da manhã

o homem atravessa a rua

nas mãos sacolas de compras

os pés descalços

a camisa de botão entreaberta

ele sente nos calcanhares

o peso do dia

a dor das reuniões intermináveis

dos carimbos enferrujados

do cabo de rede

ainda dependurado em seus ouvidos

 

 

 

 

De A festa do Rouxinol (Loitxa Lab, 2021)

 

gravação
Richard Plácido
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca