Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Francisco Mallmann

Sobre o autor

Atua entre a escrita, a performance, as artes visuais e a teoria. É Mestre em Filosofia e Doutorando em Artes da Cena. Trabalha de modo transdisciplinar e colabora com diversos grupos e coletivos artísticos – entre os quais a Casa Selvática, onde é artista residente, e a Membrana, grupa de escritoras. Seu primeiro livro de poesia, “haverá festa com o que restar” (2018), venceu o 3º lugar na categoria poesia do Prêmio da Biblioteca Nacional e foi finalista dos Prêmios Rio de Literatura e Mix Literário. Publicou, ainda, “língua pele áspera” (2019), “américa” (2020) e “tudo o que leva consigo um nome” (2021). Atualmente, seus trabalhos, pesquisas e interesses voltam-se para as escritas críticas-dramatúrgicas-performativas, a escuridão e o invisível.