Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Francisco Mallmann [compacto]

Partilhar

Os poemas aqui reunidos revelam, de algum modo, a noção de coletividade – algo que marca imensamente meu modo de criação, independente dos contextos de feitura. Há um desejo de criar e produzir em coletivo que não se esvai. Processos que se dão em reunião, em ajuntamento. Mesmo minhas escritas mais solitárias, são largamente atravessadas pelos coletivos que integro – e por ideias de comunidades menos ou mais transitórias. Interessa aqui: o trânsito, a transição, a transformação de uma coisa em outra em outra em outra.

 

Algumas coisas tem sido importantes no que tenho pensado sobre poesia: o espanto com a língua, o susto de ser alguém marcado via diferença compulsória, a tentativa de emancipação via linguagem, a criação em coletivo, o amor desviante, o sul do mundo como espaço de articulação, a radicalidade circunscrita na não-assimilação, o fim do mundo como nos foi apresentado, o desfazimento de uma métrica normativa e compulsória para as existências, relações e desejos, a irmandade com o impossível, as muitas noções de revolução, os trânsitos entre o visível e o invisível, as práticas e existências incapturáveis, e a irreconciliação.

 

Fazer política excede os campos delimitados. Criar narrativas, documentar, imaginar nossas vidas para além de uma violência imensurável, me parece, se torna ato subversivo, vital e incontornável. Lutar lançando corpo, energia e trabalho em uma noção de “memória” que excede formas e formatos. Eu acredito que a poesia pode ser um espaço para se exercer a tarefa de pensar o mundo de outra maneira. Eu acredito que ela pode ser o exercício radical para a mudança no modo como abordamos matéria e forma – fazendo com que categorizações essencialistas deixem de ditar eticamente a vida e a humanidade.

 

 

 

Francisco Mallmann

gravação
Francisco Mallmann
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca