Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Francisco Mallmann [compacto]

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Os poemas aqui reunidos revelam, de algum modo, a noção de coletividade – algo que marca imensamente meu modo de criação, independente dos contextos de feitura. Há um desejo de criar e produzir em coletivo que não se esvai. Processos que se dão em reunião, em ajuntamento. Mesmo minhas escritas mais solitárias, são largamente atravessadas pelos coletivos que integro – e por ideias de comunidades menos ou mais transitórias. Interessa aqui: o trânsito, a transição, a transformação de uma coisa em outra em outra em outra.

 

Algumas coisas tem sido importantes no que tenho pensado sobre poesia: o espanto com a língua, o susto de ser alguém marcado via diferença compulsória, a tentativa de emancipação via linguagem, a criação em coletivo, o amor desviante, o sul do mundo como espaço de articulação, a radicalidade circunscrita na não-assimilação, o fim do mundo como nos foi apresentado, o desfazimento de uma métrica normativa e compulsória para as existências, relações e desejos, a irmandade com o impossível, as muitas noções de revolução, os trânsitos entre o visível e o invisível, as práticas e existências incapturáveis, e a irreconciliação.

 

Fazer política excede os campos delimitados. Criar narrativas, documentar, imaginar nossas vidas para além de uma violência imensurável, me parece, se torna ato subversivo, vital e incontornável. Lutar lançando corpo, energia e trabalho em uma noção de “memória” que excede formas e formatos. Eu acredito que a poesia pode ser um espaço para se exercer a tarefa de pensar o mundo de outra maneira. Eu acredito que ela pode ser o exercício radical para a mudança no modo como abordamos matéria e forma – fazendo com que categorizações essencialistas deixem de ditar eticamente a vida e a humanidade.

 

 

 

Francisco Mallmann

gravação
Francisco Mallmann
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca