Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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não sei se queria ser homem

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não sei se queria ser homem

não sei se queria ser mulher

não me perguntaram

não sei se queria estar entre

duas coisas tão frágeis duas

ideias que se desfazem na vida

nesse dia camisa água céu azul

sandálias velhas e café com muito

açúcar paisagens da américa do sul

não sei se gostaria de alimentar

assim os três amores que agora tenho

que dividem espaço no peito

quando empresto rosto ao que chamam

delicadeza dizer palavras em português

justificar os sentidos dos ofícios

a que estou me dedicando não sei

fosse de escolher escolheria

talvez peça inanimada talvez

objeto inútil decoração

luz de poeira caco de vidro

casa pré-fabricada

lustre em salão antigo

vestido de paetê vassoura

algo que não demandasse

energia explicação explanação

discurso coerência algo que não

precisasse nunca elucidar motivos

responder questões não sei

o que é você e quem é você e como

chegou até aqui e para onde é que

vai desse jeito tão estranho

por que é que você não se parece

com todo o resto com tudo o que há

por que você não sabe de nada nunca

por que não sabe se queria ser homem

se queria ser mulher o que queria

ser incógnita por quê

 

 

 

 

De haverá festa com o que restar (URUTAU, 2018)

gravação
Francisco Mallmann
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca